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PEDRO QUARESMA
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Porque continuam os grandes incêndios?
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OPINIÃO | Portugal sem fogos é uma utopia perigosa
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Porque cada dia que passa, com a gradual acumulação de biomassa, se torna inevitável que tal aconteça. Quando o discurso se centra no reforço da prevenção, mas apenas se assiste à constituição de faixas que visam proteger pessoas e bens e não interferem na melhoria da gestão da floresta ou na mudança da paisagem. Continuaremos a assistir a grandes incêndios florestais se não tomarmos medidas para reduzir a carga de biomassa e alterar a paisagem. No entanto, todos os estímulos para que tal aconteça vão no sentido contrário. Ao retirarmos a vertente económica da floresta, ao criminalizarmos os proprietários florestais e responsabilizarmo-los pela segurança de terceiros, estamos a dar um sinal oposto ao que seria recomendável. Quando a opinião pública entende a floresta como um bem comum, nega-lhes o direito de retirar rendimentos, quando entende a floresta como uma ameaça, exige-lhes o dever de gerir e de proteger. Os fogos florestais são inevitáveis, fazem parte do ecossistema em que nos inserimos. No entanto, podemos aspirar a limitar a sua intensidade e o seu impacto, nunca a sua ocorrência. Porque Portugal sem fogos é uma utopia perigosa e desprovida de qualquer realismo. Por isso se torna tão preponderante gerirmos verdadeiramente a floresta. No decorrer do mês de Julho continuamos a assistir ao mesmo procedimento e ao mesmo resultado, o fogo parará quando não tiver mais combustível e andaremos a correr atrás, como foi típico no incêndio que assolou Mação. Das medidas legislativas contida na dita "reforma florestal", qual ou quais é que terão verdadeiro impacto na gestão da floresta e na disponibilidade de biomassa? Em Arouca, quando sabemos que o incêndio de 2005 e 2016, seguiu o mesmo caminho e teve, mais ou menos, o mesmo resultado, que poderemos fazer ao nível da gestão da floresta para evitarmos que o mesmo aconteça, pelo menos com a mesma dimensão, daqui a poucos anos? Andamos iludidos com as faixas em redor das edificações e das estradas, que muitas vezes são casos de código civil e litigância entre vizinhos, e pouco de gestão da floresta ou de risco de incêndio. Há pouco tempo, num seminário sobre formas de dinamizar a economia na Beira Interior, um orador perguntava ao Presidente da Câmara quantas vezes no ano lectivo dava chanfana ou carne criada localmente aos alunos do seu concelho. A resposta, como se esperava, foi negativa. Se queremos dinamizar a economia ligava à floresta, neste caso, animal, teremos de ser capazes de fomentar o seu aumento através da geração de riqueza e de rendimento, sob pena de termos um discurso alinhado com as directrizes urbanas, mas desalinhado com a realidade. Andando constantemente pasmados com a inevitabilidade da degradação da economia rural. Em vez disso, andamos a criar entidades em cima das que existem e a reforçar em meios técnicos, pasme-se, na vertente do combate. Mas continuamos a correr atrás da fera... Penso que precisamos de um reset...
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