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CÁTIA CARDOSO
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Um aldeia à venda
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OPINIÃO | Torna-se impossível ficarmos indiferentes com tal cenário
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Em Arouca, há, incontestavelmente, um antes e um depois dos Passadiços do Paiva. E é possível que, de todos os Lugares do concelho, a aldeia cujo antes e depois é mais notório seja aquela onde se encontra um dos extremos da estrutura. Localizada numa das pontas do concelho, a Espiunca caracterizava-se, antes, pelo sossego interrompido apenas pelo som do correr do rio e balidos dos caprinos, pelas casas de xisto, muitas já abandonadas por aqueles que largaram a aldeia à procura de outra vida (talvez achando esses que há vida melhor do que viver ali). Existe agora o depois, para esta aldeia cuja história vivera até então marcada, entre tudo aquilo que o tempo apagou, pelo rio que serviu de via de comunicação e passagem de produtos e pelo mosteiro que terá existido no local onde hoje está um campo, onde terão sido recolhidos materiais como fragmentos de telha, colunas, pias e azulejos hispano-árabes. "Documentado pelo menos desde 1199, o pequeno mosteiro feminino da Espiunca, da regra de S. Bento, terá sido extinto no século XVI, tendo as freiras sido deslocadas para o Mosteiro de S. Bento da Avé-Maria, no Porto" (in Memórias da Terra). E esse depois vê a sua história marcada não apenas pelo melhor projeto de desenvolvimento turístico mas também por todas as consequências deste, sejam elas positivas ou nefastas. As multidões que, enfim, invadem, desde 2015, a aldeia são mais fáceis de suportar do que as inúmeras placas a dizer "Vende-se" com diferentes contactos que se estendem nas casas e terrenos, situados perto do rio. É possível que seja a nossa veia de patriotismo a falar mais alto, contudo, torna-se impossível ficarmos indiferentes perante tal cenário, que provoca inclusive a sensação de receio perante aquilo em que poderemos ver uma das nossas aldeias transformada. Hoje - hoje mesmo no momento em que esta crónica é escrita - a Espiunca é uma aldeia à venda. Para construir, para reconstruir, para que os compradores - ou investidores - possam fazer o que quiserem. E não há mal nenhum em dar vida às nossas aldeias, outrora descoradas pelo tempo e pelos que lhes viraram as costas, não há mal nenhum em potencializá-las, mostrando-as ao mundo e fazendo-o invejar quem aqui nasceu e cresceu. Também não há mal nenhum em receber quem vem de fora nas nossas casas que, não há mal nenhum, reconstruirmos. Porque o que é nosso é bonito e não deve dominar o egocentrismo de não o partilharmos com quem não vive em tal realidade. O mal está em destruirmos a essência dos nossos Lugares, descaracterizando-os e despontencializando-os. A Espiunca é um Lugar especial por ser uma aldeia plantada à beira rio - uma aldeia! - com casas de xisto e campos onde pastam animais em liberdade - campos! animais! liberdade! No dia em que a Espiunca tiver - e rezemos para que nunca lá chegue - mais turismo e negócios e menos a sua essência, então perdemos todos. Perdemos nós, os das margens do Paiva e arouquenses no geral, porque deixamos perder-se uma aldeia histórica e perdem os que cá chegam na expectativa do especial e encontram o banal. A hotelaria não rural, por exemplo, não integra a essência desta aldeia. Por isso, chegar hoje à Espiunca e sentir que estamos numa imobiliária, perante tantas placas de venda, deixa a sensação de desconforto e medo. Que nunca passe disso. Que vendam e comprem, mas que, quem o fizer, tenha em mente aquilo que a aldeia e procure contribuir para a continuidade de um espaço aprazível, fiel às suas tradições e história. Há, em suma, que preservar a essência desta aldeia, pois se não soubermos preservar, mais tarde, não teremos o que potencializar. Que a Espiunca seja, então e sempre, exemplo dos Lugares mais bonitos deste concelho abençoado e das aldeias mais bonitas do mundo (basta aos olhos dos que, de alguma forma, lhe pertencem). Que possamos sempre cair na apreensão de a descrevermos, pela responsabilidade que é conseguir fazer jus aos seus encantos.
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