IVO BRANDÃO
 
Só neste país
 
OPINIÃO | É preciso perder para depois se ganhar
 
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Lembro-me de ler, algures numa enciclopédia/dicionário de Filosofia (algo que, na era da internet, e por quase só se encontrar em bibliotecas, soa a quase jurássico) uma curiosa definição de política. Dizia, em tom claramente filosófico, a condizer com a publicação, que a política é a arte de pensar os fins com base nos meios e de dispor os meios em função dos fins. Até aqui, tudo muito bonito, mas falta um factor decisivo: o possível. Dizia muitas vezes o meu amigo José Artur Neves, em diversas contendas parlamentares locais, que a política é a arte do possível. Parece-me mais adequado.
Governar um país é mais ou menos como gerir uma manta que apenas cobre as pernas de um velhinho que esteja na cadeira de rodas. É óbvio que, se tentarmos cobrir o peito ou os braços do velhinho, as pernas ficam descobertas. Os sucessivos Governos, desempenhando o papel que crêem ter-lhes
sido atribuído, procuram dar-nos a ilusão de que é possível aquecer o peito do velhinho sem lhe descobrir as pernas. Nesse particular, são bem sucedidos. Conseguem dar-nos essa ilusão. Como dizia ao seu gato o velho Boris, no filme ‘O Pátio das Cantigas', sobre a rádio do Engenhocas: o nosso vizinho tem a ilusão de que o seu aparelho toca. Para quê tirar-lhe essa ilusão?
A apresentação de um Orçamento de Estado é sempre uma altura propícia ao debate e ao puxar da manta para todos os lados, por parte de todos os envolvidos nas negociações. É óbvio que os patrões gostariam de lucrar mais. É óbvio que os trabalhadores gostariam de ganhar mais. É óbvio que o Estado não quer deixar de arrecadar os seus impostos e taxas. E é também óbvio que todos gostaríamos que as coisas ficassem mais baratas. O Governo parece estar a basear as suas previsões optimistas numa descida da inflação, o que pode ser uma falácia, porque mesmo que a inflação baixe, os preços não deverão baixar. ‘É a Economia, estúpido', diriam os irmãos Marx. Ao mesmo tempo, estamos a receber um apoio extraordinário, numa altura em que os combustíveis (cujo preço é composto maioritariamente por impostos) sobem drasticamente. Os profissionais da Cultura, que aderiram a linhas de apoio durante a pandemia, vêem-se enredados numa complicação tremenda para passarem os seus recibos verdes,
porque parece que têm de pagar uma taxa extra à Segurança Social, precisamente por serem profissionais da Cultura. Parece paradoxal, no mínimo. E sobre a tremenda desvalorização do trabalho dos professores, tanto a nível social como remuneratório, nem se fala.
Mas, ao que parece, a vida é mesmo assim. É preciso perder para depois se ganhar, cantaria Mariza e repetiria Jorge Jesus. Todavia, olhamos para o resto da Europa, e tudo parece funcionar de forma diferente. Muitos países optam por baixar o IVA, por exemplo. Já para não falar que (parece cíclico) muitos se constituem como apetecíveis destinos para emigrar. A vida está cara, e quando sobra mês e falta salário, não há força anímica que aguente. Começamos a perceber que é preciso falar de doenças mentais para além da alta competição, porque o nosso dia-a-dia já começa a ser equiparado à alta competição.
Os frequentadores mais assíduos da Assembleia da República costumam gostar de citar os nossos ‘cantautores'. Elejamos Sérgio Godinho. Se a maioria parece estar à espera do comboio na paragem do autocarro, o que é certo é que só neste país é que se diz ‘só neste país'.
 
Arouca

Domingo, 05 de Fevereiro de 2023

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A Frase...

"Este projecto dá novas competências às pessoas que lá habitam a nível de alimentação, higiene e saúde"

Padre Luis Mário, em declarações ao RV, faz o balanço do "Bairros Saudáveis"

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