CARLOS BARBOSA
 
Solidariedade fanfarreada
 
OPINIÃO | Difícil é ajudar o próximo
 
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Há dias, a propósito da crescente necessidade de nos focarmos na solidariedade para com aqueles que se apresentam mais fragilizados, lembrei-me de uma história que se passou com alguém próximo.
No relato que me foi feito, contou-me que perante uma crónica que lia sobre um refugiado sírio, se confrontou com uma mistura de sentimentos profundamente inquietante. Durante a leitura dessa crónica, que descrevia todo o processo desde a fuga que fora obrigado a fazer para poder sobreviver. Passando pelos vários eventos em que a proximidade da morte e a perda da dignidade humana não eram apenas uma miragem, foi-se-lhe crescendo um impulso de ajudar. À medida que a história evoluía, esse impulso ia crescendo. Como poderia ajudar alguém que está tão longe? Crescia a cada nova peripécia que ia sendo relatada.
Todavia, a história vai-se aproximando do fim e nessa altura percebe que a história relatada era relativa a alguém que embora refugiado sírio se encontrava na mesma cidade em que vivia. Alguém que apesar de ter conseguido afastar-se do inferno, ainda não conseguia ter chegado ao paraíso que tanto ambicionava. As dificuldades continuavam infinitas.
Corria inclusivamente o risco de ter que regressar ao inferno. Corria o risco de ter de sair do país que o havia acolhido provisoriamente. Era a história de alguém que vivia na mesma cidade e a quem poderia dar a ajuda que tanto lhe tinha apoquentado a alma.
Nessa altura, contou-me então, depois de perceber que a história era de alguém que está fisicamente tão perto, notou que esse tal sentimento de ajuda já não era tão profundo e forte. O sentimento tinha-se alterado, exclusivamente por perceber que esse alguém estava tão próximo. Como se estar próximo o fizesse ter menos dificuldades.
O que seguidamente aconteceu já pouco interessa para o propósito deste texto, embora toda esta narrativa se revista de uma intenção que importa realçar.
O verdadeiro propósito desta narrativa é genericamente alertar-nos para o que frequentemente acontece. Temos mais facilidade em ajudar o que está distante do que aquele que está à nossa porta. Como dizia Madre Teresa de Calcutá, difícil é ajudar o próximo, porque o que está distante temos sempre mais facilidade, pois está distante.
Escolhi agora falar sobre o tema da ajuda e da solidariedade, quando já passaram vários meses sobre a data da invasão da Ucrânia por soldados russos e da febre de solidariedade de que tanta propaganda foi feita. Uma solidariedade sem organização, avulsa e até desumanizada.
Uma solidariedade que apela à publicidade, que se espelha nos feed das redes sociais em que o propósito maior é alimentar a nossa vontade de validação e reconhecimento. Solidariedade que é apenas uma massagem à nossa consciência. Massajar as consciências de quem publicita mais do que aquilo que verdadeiramente faz.
A solidariedade é verdadeira quando o que se colhe é apenas a satisfação de ter ajudado alguém. A satisfação de ver o outro feliz ou pelo menos, mais próximo dessa felicidade. Houve e continua a haver muitos atos de solidariedade que não foram nem são publicitados, mas que levaram a uma profunda alteração na vida das pessoas que a promoveram. Desde famílias que acolheram refugiados na sua própria casa, sem antecipadamente terem delas qualquer conhecimento. Pessoas que dividiram o seu trabalho e ao mesmo tempo o seu salário. Pessoas que utilizaram o dinheiro que estava destinado para as suas férias para ajudar quem necessitava.
Solidariedade que, entretanto, saiu de moda e agora não é mainstream.
Acontece ainda uma outra realidade camuflada de solidariedade. Exponenciar a fragilidade das pessoas que são ajudadas apenas com o objetivo maior de publicitar tais feitos. Mais não fazem do que expor quem sofre e necessita de reforço da sua autoestima. Realidade que como há tempos vi na publicação de fotos de uma família carenciada que fora ajudada pela autarquia de Arouca. Exposição que nada
contribui para a satisfação de quem necessita. Apenas serve o propósito da propaganda.
A solidariedade não pode ser uma moda nem um instrumento para exponenciar as nossas carências de autoestima e de afago de consciências. É bom que não nos esqueçamos disso!
 
Arouca

Domingo, 25 de Setembro de 2022

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A Frase...

"A maior casa monástica era a de Arouca, para onde se deslocavam inúmeras jovens da alta linhagem do reino"

Helena Cruz Coelho, na apresentação do Diplomatário do Mosteiro de Arouca

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