MAFALDA FERNANDES
 
A condição da gente
 
OPINIÃO | Já não se contabilizam os mortos e os feridos
 
  Outras acções...
 Enviar a um amigo
 sugerir site
Logo de manhã cedo, liga-se o televisor para o serviço de noticiários e não se vislumbra evolução na invasão da Ucrânia. Quer dizer, há evolução sim, mas no pior dos sentidos.
Já não se contabilizam os mortos e os feridos. A guerra, qualquer guerra, anda sempre associada à morte, à deficiência, ao massacre, ao sofrimento escusado. E há destruição mais completa, como se vai vendo. Perante o espectáculo diário dos resultados dos bombardeamentos, conclui-se que o aparelho residencial de todas as cidades, vilas e aldeias das zonas fronteiriças da Ucrânia com a Rússia foi cirurgicamente danificado, tendo sido colhida no ataque uma ou outra pessoa mais idosa a quem nunca passou pela cabeça tal coisa e que se vai deixando ficar, recusando-se a vadiar pelo mando e ficando a vadiar na noite, como os animais abandonados, sem tecto nem esperança. Ouvimos, algures no tempo, referir que esse aparelho residencial será implodido todo e reconstruído como deve ser, num futuro que, cada vez mais, se nos afigura a utópico. Para todos.
Quando eu tinha nove anos, isto em 1946, a avó Clementina, que tinha nascido no século XIX, e nele tinha vivido a sua adolescência e a juventude, já no século vinte, sussurrava-me ao ouvido as suas preocupações enormes relativamente à sua descendência:
- O Mundo vai acabar pelo fogo!
E a sua netinha ficava-se a cismar no fogo de que falava a avó Clementina.
Não era o fogo que lavrou a casa da outra avó e que lhe queimou a sala e os quartos, porque começou no palheiro que ficava por baixo. Isto em 1940. Deste incêndio, a netinha não se lembra, mas sim de um espelho grande que havia na parede e que, sem mais nem menos, se estilhaçou todo, sem ninguém lhe tocar. Dizia-se, na altura, que era sinal de tragédia. Também em 1940.
Hoje, a neta da avó Clementina sabe que o fogo a que ela se referia, era o fogo total. Isto, porque as correntes ditas filosóficas do século XIX, no seu fim e no princípio do século vinte, não foram postas de parte. Segundo essas mesmas teorias, o ser humano desvaloriza-se perante os interesses. A vida humana não vale um cêntimo perante os interesses.
A avó Clementina não esqueceu os rumores dessas teorias e a sua neta sabe que tudo leva a crer que ainda persistam.
 
Arouca

Domingo, 25 de Setembro de 2022

Serviço temporariamente indisponível!

PUB.
PUB.
 
 
A Frase...

"A maior casa monástica era a de Arouca, para onde se deslocavam inúmeras jovens da alta linhagem do reino"

Helena Cruz Coelho, na apresentação do Diplomatário do Mosteiro de Arouca

EDIÇÃO IMPRESSA

RSS Adicione ao Google Adicione ao NetVibes Adicione ao Yahoo!
PUB.
Desenvolvido por Hugo Valente | Powered By xSitev2p | Design By Coisas da Web | 73 visitantes online