PEDRO QUARESMA
 
A (in)existência de apoios comunitários
 
OPINIÃO | Assistimos a um abandono crescente das propriedades florestais
 
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Tendo Portugal um histórico de grandes incêndios, com Arouca claramente na linha da frente, assistimos a que a generalidade das opções de apoio comunitário seja destinada unicamente a áreas queimadas, sem nos preocuparmos com as áreas que ainda permanecem verdes e a acumular biomassa. Sendo assim, andamos sempre a correr atrás do prejuízo, sem planearmos e sem prevermos que essas áreas se tornarão o combustível dos grandes incêndios do ou dos anos seguintes.
Este artigo também vem a respeito do relatório ibérico da WWF que desmistifica o álibi correntemente usado pelos nossos políticos no que respeita às culpas dos grandes incêndios. Muitas vezes os responsáveis políticos usam a desculpa da mão criminosa organizada para justificar e assim desculpabilizar a sua responsabilidade na definição das orientações estratégicas.
Todos os relatórios de várias entidades independentes dizem que a mudança de paradigma nos fogos florestais terá de vir do desenvolvimento rural e planeamento territorial, ao invés da aquisição cada vez mais inconsequente de meios pesados e relacionados estritamente com o combate. Ou seja, temos de incorporar conhecimento científico e técnico na gestão florestal e começar a gerir, de uma vez por todas, a quantidade de biomassa que os espaços rurais produzem e que torna o território num barril de pólvora.
Pois é aqui que entram os apoios comunitários para a gestão da floresta, ou a inexistência deles, para o território que ainda permanece verde. Poucos apoios existiram, ao longo do actual quadro comunitário de apoio, PDR2020, que pudessem ser aproveitados pelos proprietários florestais para a gestão das suas propriedades, as poucas que ainda subsistem incólumes. Em contraponto, assistimos a um despejar de verbas para restabelecimentos de emergência, aprovados dois anos após o incêndio, e outras acções que em concreto nada acrescentam na melhoria da gestão florestal.
Actualmente assistimos a um abandono crescente das propriedades florestais, sem a execução das práticas de gestão mínimas e que trará, a médio prazo, graves consequências ao território. Não é por virarmos o olhar para o lado que o problema desaparece. Estamos a preocuparmo-nos com a floresta na proximidade das edificações e estamos a abandonar e a esquecer completamente o resto do espaço florestal em que não são obrigatórias as faixas de gestão de combustível. Iremos pagar bem caro esse abandono.
Porque a informação não se esgota neste artigo, os leitores que desejem aprofundar alguns aspectos podem endereçar as questões através do correio electrónico: pquaresma.arouca@gmail.com.
 
Arouca

Quinta, 20 de Setembro de 2018

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