SOCIEDADE
 
A paixão pelo sapato
 
Manuel Correia
FIGURA | Manuel Correia está há mais de seis décadas na mesma oficina, em pleno coração da vila de Arouca
 
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Manuel António Pinho Correia, de 73 anos, casado, dois filhos e dois netos, é uma figura típica da vila de Arouca. Sapateiro há mais de seis décadas na mesma oficina, em pleno coração da vila de Arouca, é perfeccionista e dedicado a uma arte que, segundo ele, tem os dias contados.
Numa conversa agradável, Manuel Correia abriu o álbum de recordações duma já longínqua actividade profissional que faz parte da nossa história colectiva, representada de forma exímia no clássico da literatura portuguesa, 'Auto da Barca do Inferno', de Gil Vicente.
Outrora as oficinas de sapateiro eram locais de paragem e de convívio, tal como acontecia nas barbearias e alfaiatarias, espaços-ícones da vilas e aldeias portuguesas que tendem a desaparecer com a erosão do tempo.
A palavra ao mestre Manuel Correia: «Quando terminei a quarta classe vim para a sapataria do Alberto
Alves aprender a arte de sapateiro, naquela altura era assim. Também cheguei a ir várias vezes para casa do Vitorino Rocha Moreira, que foi o meu mestre e me ajudou muito. Lá, para além de aprender a fazer e a consertar sapatos, também fazia pequenos trabalhos de electricista.
Sou sapateiro há mais de sessenta anos, só tive uma um interrupção na minha actividade de dois anos,
quando fui para a tropa nos anos de 1968 a 1970. Assentei praça em Vila Real, depois fui para Penafiel, de seguida para Viana do Castelo e, por fim, incorporado para a guerra do Ultramar, na Guiné.
Estou nestas instalações desde o início desta minha profissão, só que na altura este espaço estava muito velho, entretanto foi todo remodelado.
Chegamos a trabalhar aqui na sapataria seis pessoas, e eu era o mais novo. Lembro-me que naquela altura fazia-se calçado novo aqui na oficina, por exemplo, as botas com sola de pneu, era tudo feito manualmente. O Alberto Alves comprava as peles, talhava e fazia o corte. Os sapatos e botas que fazíamos na oficina eram encomendados, tínhamos muita procura, não existia sapataria de venda ao público como existem nos dias de hoje.
Gosto muito da minha arte, e digo mais, muito fraco é o artista que não faz com gosto o seu trabalho. Quando se faz com gosto o trabalho fica sempre mais bem feito, é preciso termos paixão naquilo que fazemos.
Utilizo na minha arte vários instrumentos manuais, como a sovela, o martelo, a turquesa, alicates e facas.
Comecei a trabalhar por minha conta em 1983, aqui, na mesma oficina onde aprendi a arte em 1956, na
rua Dr. Coelho da Rocha!
Hoje em dia há muito menos trabalho, vemos por aí à venda calçado que é praticamente dado, também
a qualidade em muitos casos deixa muito a desejar, é feito à base de plásticos. Mas, felizmente, não posso me queixar da falta de serviço. Então quando chegam os emigrantes no Natal e no Verão o trabalho aumenta bastante, chego a trabalhar dez horas por dia.
Tenho clientes fiéis há muitos anos, como são os casos do doutor Armando Zola e dos filhos da dona Maria Antónia, esposa do doutor Brandão, de Urrô.
No geral, há mais serviço de calçado de mulheres, porque os sapatos altos necessitam de arranjo frequente. Os saltos estão mais sujeitos a partir por entre os paralelos dos passeios e é preciso renovar as capas.
Vejo com muita pena que a minha arte e outras estejam condenadas a desaparecer porque a juventude, hoje em dia, não quer nada com elas. O meu filho que hoje é professor, depois de acabar a escola, vinha sempre para a oficina ajudar-me e só depois ia para casa fazer os deveres. Penso que é importante os jovens terem contacto com o mundo do trabalho desde cedo, para aprenderem a dar valor às coisas e às dificuldades da vida. Infelizmente, vemos por aí muitos que não lhes apetece fazer nada e isso revolta-me, porque sou de outro tempo... Éramos educados para o trabalho e para o respeito pelas pessoas.
As escolas também deveria ensinar aos jovens algumas artes que começam a morrer e que na minha opinião ainda têm futuro, como por exemplo, alfaiate, entre outras». JCS 2020-02-23
 
Arouca

Sábado, 04 de Abril de 2020

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A Frase...

"A desertificação que assola Arouca e a falta de empenho do executivo na nossa indústria causam-me preocupação"

Vitor Moreira, deputado municipal do CDS, em entrevista ao RV

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