ENTREVISTA
 
"Gosto de fazer muitas coisas ao mesmo tempo"
 
Fernando Teles
ENTREVISTA | Fernando Mendes Teles, 62 anos, natural da freguesia de Alvarenga, é presidente do Conselho de Administração do Banco BIC Angola e Portugal | TEXTO COM MAIS DE 1800 VISUALIZAÇÕES
 
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Seguramente o arouquense mais poderoso e influente a nível económico, apresenta um percurso de vida notável, onde as palavras "esforço", "trabalho" e "dedicação" andaram sempre de mãos dadas com as preocupações sociais. Fernando Mendes Teles, 62 anos, natural da freguesia de Alvarenga, é presidente do Conselho de Administração do Banco BIC Angola e Portugal. Partiu ainda muito novo do berço natal à procura de oportunidades para melhorar as suas condições de vida. Entrou na banca aos 14 anos, onde subiu os diversos patamares até atingir o topo. O apego à família e às raízes foram constantemente exaltadas por Fernando Teles ao longo da entrevista que concedeu ao RODA VIVA, durante uma visita-relâmpago a Alvarenga. Uma conversa, uma lição de vida. Para ler e reflectir.

Quem é o cidadão Fernando Teles?
Nasci há 62 anos em Alvarenga. Vivi cá até aos 14 anos, fiz a escola primária e frequentei o segundo ano do liceu. A banca entrou na minha vida em 1966 quando fui para Angola. O meu irmão mais velho (Alberto Teles) era director de recursos humanos da Junta Autónoma de Estradas (Angola) e levou-me para lá: trabalhei aí durante sete meses. Depois surgiu a oportunidade de entrar na banca (Banco de Crédito). Passei por cinco bancos! Estou nesta actividade há 48 anos, e entretanto fui fazendo outras coisas.

Angola é a sua segunda pátria?
Vivo há vinte anos em Angola, onde constituí dois bancos: o Banco de Fomento Exterior, actualmente Banco de Fomento Angola [grupo BPI], e o Banco BIC Angola. Sou actualmente líder do Banco BIC em Angola, Portugal, Brasil, Cabo Verde e África do Sul.

Quais as qualidades de empresário que identifica como resultantes da sua origem arouquense?
A humildade, o bom senso e a consciência de que as coisas não aparecem sem trabalho. Tem que se trabalhar muito para se atingir os objectivos. O que aconselho sempre é que as pessoas estudem. Eu próprio fiz dois cursos superiores em Lisboa, de Contabilidade e Administração (ISCAL) e Gestão de Empresas (ISCTE). As pessoas devem aprender mais e valorizarem-se constantemente. Só através da formação conseguimos estar suficientemente preparados para atingir objectivos. Quando terminei o curso de Contabilidade e Administração, e ainda em Lisboa, eu e a minha mulher chegamos a fazer doze "escritas" para complementar o ordenado. A minha vida é feita de muito trabalho. As pessoas têm de arriscar, sair da sua área de conforto e trabalhar muito.

Alvarenga de hoje e da sua infância. Quais as diferenças?
É totalmente diferente. Alvarenga em termos de paisagem não é muito diferente, no entanto, há mais casas, mais estradas, há luz e água nas casas. Recordo-me que quando saí para Angola (1966) a habitação dos meus pais não tinha electricidade nem água canalizada. Alvarenga e Arouca de hoje são muito diferentes daquele tempo. Depois do 25 de Abril, Portugal cresceu muito, quem anda fora do país nota mais esse crescimento e a sua evolução.

A sua terra natal é conhecida pelo elevado número de licenciados, sobretudo na área da medicina.
Era uma freguesia de pessoas ambiciosas?

Alvarenga hoje tem muito licenciados, muitos médicos e engenheiros. Os agricultores de Alvarenga foram
pessoas inteligentes, porque não tendo muito rendimento, tiveram a preocupação de colocar os seus filhos a estudar. O meu pai morreu com 33 anos, tinha eu apenas seis anos, e admiro-o muito. Sendo ele agricultor médio e não tendo possibilidade de colocar os filhos a estudar, mandou os dois mais velhos (somos oito irmãos) para o seminário, onde concluíram o antigo sétimo ano. Ambos haveriam de prosseguir estudos superiores: um é engenheiro civil e o outro é advogado. Isso permitiu ajudar os outros irmãos mais novos, como foi o meu caso.

O regresso permanente às origens a Alvarenga é uma necessidade e um escape?
As nossas raízes são sempre as nossas raízes. Gosto de voltar às minhas raízes sempre que posso. Quando as pessoas se sentem bem na sua terra é normal que invistam nela. Tenho alguns familiares cá na terra e sempre que venho a Portugal dou um salto a Alvarenga, sobretudo aos fins-de-semana. Também nos períodos férias e festas gosto de vir até cá. Possuo aqui vários investimentos ligados à produção de gado arouquês, e outros pequenos investimentos que me agradam e são mais uma razão para eu regressar.

Os arouquenses olham para si com grande respeito e admiração. Sente-se um embaixador de Arouca no exterior?
Não estou num patamar mais elevado em relação a nenhum outro arouquense. As pessoas são todas iguais. Estou numa posição de algum destaque, não o nego. Mas Arouca, ao longo dos tempos, teve sempre famílias muito importantes que de uma forma ou de outra se foram notabilizando. Recordo os casos das famílias Galvão Teles, Peres, e da "Sical" em Alvarenga, e a família Vaz Pinto, do Burgo.

Mas é presidente de um grande banco luso-angolano, com dimensão económica nos dois países.
Em termos económicos, estou numa situação confortável. Mas fui à luta. Saí de Portugal, onde era director
de um Banco, e fui para o exterior abrir um banco novo numa altura em que ninguém queria sair de Portugal e ir para Angola, quando estava em guerra. Sair da zona de conforto é muito difícil. Ser emigrante não é fácil. Vejo hoje muito emigrantes licenciados a deixar os pais, a família, e partir, e sei que é muito complicado. Mas é a lei da vida. Temos de ir à procura nos países de acolhimento das condições de vida que o nosso país, num determinado momento, não nos consegue dar. Só assim conseguiremos singrar na vida.

Aparece com uma imagem menos institucional e conservadora do que é padrão num banqueiro. É uma estratégia ou uma característica pessoal?
Defendo a política da porta aberta. Qualquer pessoa que queira falar comigo, incluindo os trabalhadores,
sabe que se bater à minha porta eu atendo, mesmo que seja para dizer que não. Para mim, as pessoas são todas iguais, independentemente da sua condição social. Dou-me bem com o ministro e com o contínuo e não me tenho dado mal com essa postura. Vivemos com o cliente, precisamos dele e temos que o atender de forma personalizada, procurando ajudá-lo a resolver os seus problemas. Quando ajudamos as pessoas a resolver os seus problemas, mais cedo ou mais tarde acabamos por beneficiar com isso. As pessoas chegam ao pé de mim, e muitas vezes dizem-me: "você ajudou-me nisto ou naquilo", e eu muitas vezes já não me lembro, pois já passaram vinte anos.

Essa postura, deve-se à influência da educação que teve?
Tenho origens humildes, os meus pais eram agricultores e tiveram dificuldades em criar os filhos. Nunca me esqueço do exemplo deles nem de onde venho. Tanto o meu pai como o meu avô paterno, que também era agricultor e chegou a ser presidente da Junta de Freguesia de Alvarenga, morreram muito novos, com apenas 33 anos. A morte prematura do meu pai fez com que eu e os meus irmãos tivéssemos que crescer mais cedo para enfrentar a vida. Ajudámo-nos muito uns aos outros. Na família, damos valor ao dinheiro e ao que conquistamos no dia a dia e não desbaratamos. Hoje, felizmente, posso dar-me a determinado tipo de luxos, mas mesmo assim, custa-me gastar o dinheiro, porque sei o valor que ele custa a ganhar.

Fez parte da comissão de trabalhadores e líder sindical enquanto funcionário bancário. O exercício dessas funções tem-no ajudado nas relações com os funcionários enquanto patrão?
Estive durante muitos anos no Banco Borges & Irmão (hoje BPI) e toda a gente me conhece. Fui líder durante muito tempo dos trabalhadores, mas nunca deixei o meu local de trabalho. Era economista e fazia estudos económicos dos projectos de investimento que entravam no banco. As pessoas têm que defender princípios e eu continuo a defendê-los. Preocupam-me as questões sociais do meu vizinho, do meu amigo, do meu familiar, mas temos que ser racionais. Não resolvemos os problemas de todos sozinhos, mas devemos ajudar os problemas daqueles que estão à nossa volta e são mais carenciados. Mas as pessoas também têm de fazer um esforço para poderem viver melhor, para estudar e para se organizar.

O que preza mais num funcionário BIC?
Tenho uma equipa de dois mil trabalhadores em Angola e mil e quatrocentos em Portugal. Ainda recentemente, por ocasião do aniversário do Banco BIC Angola, disse aos trabalhadores que estava satisfeito com o desempenho deles, porque as instituições são o reflexo dos seus trabalhadores. Se tivermos boas equipas e bons líderes vamos atingir os nossos objectivos. Os recursos humanos são fundamentais nas organizações. Temos que gerir com bom senso e lucidez e procurar fazer o melhor, para
que os trabalhadores se sintam bem nas instituições. O pior que pode acontecer a quem está à frente de uma organização é demitir-se das suas funções.

Quantas horas trabalha por dia?
Normalmente entro nobanco às 7h20 e saio às 19h30, com uma hora de intervalo para almoço. A banca em Angola abre às 8h00 e eu reúno o Conselho de Crédito às 7h30. Àquela hora, tenho vinte e tal pessoas à minha volta a decidir as operações de crédito que vamos fazer nesse dia.

Sente-se um visionário?
Não. Acho que sou uma pessoa absolutamente normal. Procuro trabalhar bastante e gosto de fazer muitas
coisas ao mesmo tempo. Hoje, para além da banca, também estou noutros sectores de actividade como a
madeira, a construção civil, a produção de carne, a produção de arroz e de milho. São projectos para que me convidam e que acho que devo avançar. Em Arouca, vou apostar ainda mais na produção de gado arouquês em confinamento, isto é, em engorda, e também vamos avançar na produção de suínos na zona de Mealha (Canelas). Tenho 170 cabeças de gado arouquês na serra de Montemuro e estou a ver se arranjo mais cem cabeças, porque as coisas têm que ter dimensão, ou não têm rentabilidade. Temos de
ter consciência que os projectos muitas vezes a curto prazo não têm rentabilidade, mas a médio e longo prazo, têm que ter. E é isso que procuro fazer, criando também postos de trabalho em Alvarenga.

Para além da vertente económica, também tem apoiado cá a promoção cultural, desportiva e social.
Tenho contribuído para que a freguesia se mexa mais. Posso adiantar em primeira mão que Mickael Carreira vem actuar [actuou] na festa de Santo António no dia 14 de Junho e a Mariza no dia 2 de Agosto, por altura da Volta a Portugal em Bicicleta. Partirá daqui uma etapa da prova no dia 4 de Agosto.

Em Arouca o que falta fazer para a captação de investimento que permita estancar a saída de jovens para fora?
Apesar das naturais dificuldades económicas, Arouca é um oásis em termos de desemprego quando comparado com o resto do país. Mas é importante criar mais indústrias no concelho, procurar incentivar o crescimento do gado arouquês. O arouquês é um produto de excelência e os montes estão todos abandonados. Ou seja, é possível criar gado nos montes. Hoje, o concelho de Arouca poderia ter à vontade mais 15 ou 20 mil cabeças de gado. É uma questão de se incentivar, criar condições para que o gado arouquês seja um pólo de desenvolvimento no município de Arouca.

Que balanço faz do trabalho do seu amigo Artur Neves à frente da CMA?
Os arouquenses já o elegeram três vezes para a presidência da Câmara, o que significa que estão stisfeitos com o seu trabalho à frente do município. Eu que estou longe e venho a Arouca de vez em quando, penso que ele está a fazer um bom trabalho, para além disso, o município de Arouca não está endividado, tem uma boa situação económico-financeira, o que quer dizer que está a ser bem gerido. Agora é importante que o concelho de Arouca se desenvolva ainda mais. Para isso, as pessoas que são originárias desta zona ou pessoas de boa vontade de outras regiões do país que sejam aliciadas a investir devem fazê-lo porque vale a pena. Mas para tal, também é importante que as vias de comunicação estejam mais rasgadas, para ser mais fácil chegar a todos os lados mais rapidamente. Mas julgo que o trabalho feito nos últimos anos é meritório. Recordo-me que quando era criança para ir para Arouca tínhamos que passar por Castelo de Paiva. Actualmente temos uma boa estrada que liga Alvarenga a Arouca e foi pena não se ter avançado com a construção da barragem.

Concorda com o investimento que a autarquia vai fazer no rio Paiva?
O rio Paiva é muito aprazível e são muitos aqueles que o procuram, sobretudo as suas praias fluviais no
Verão e para desportos de aventura. O projecto que a CMA tem para o rio Paiva parece-me bastante interessante. Aquele corredor que está previsto ao longo do rio vai trazer mais turistas a Arouca. O nosso concelho é muito bonito, sempre que trago amigos de outras paragens até aqui não se cansam de elogiar as nossas belezas naturais. Quem vem de fora até acha Arouca mais bonita do que nós que somos de cá.

Nos seus investimentos em Arouca fala a razão ou o coração?
Fala mais o coração do que propriamente a rentabilidade. Muito embora continue a dizer que quando entro num projecto empresarial é para que ele seja rentável a médio e longo prazo, como já disse atrás. Mesmo que não seja para ganhar muito dinheiro, pelo menos que não dê prejuízo. Os investimentos que tenho em Angola e no Alentejo são de rentabilidade mais rápida do que aqueles que tenho em Arouca. Com os investimentos que tenho em Arouca e Alvarenga sinto que estou a contribuir para o desenvolvimento da minha terra. Tenho consciência que o meu contributo ainda é pequeno mas pode ser maior nos próximos tempos.

Tem outros projectos na forja para o concelho?
Tenho. Nos terrenos que adquirimos vamos lá colocar mais gado arouquês, vamos criar porcos, estamos a fazer vinha, acabei de plantar três hectares de olival na zona de Meitriz e quatro hectares no lugar de Várzeas (Alvarenga). Tenho ainda oito hectares de vinho verde na zona do Vau (Canelas).

O patrocínio do Banco BIC ao FC Arouca é para continuar?
Sabemos que existiram alguns problemas entre o clube e a autarquia, que julgo já estarem ultrapassados, mas connosco não existiram quaisquer problemas. Temos uma boa relação com o FC Arouca, e se a direcção pretender manter o patrocínio, da nossa parte estamos receptivos a renovar o contrato para a próxima época.

Quais são os seus hóbis em Alvarenga?
Procuro sobretudo descansar e visitar aquilo que tenho em produção - as vacas, as oliveiras e a vinha. E
gosto também de estar com os amigos. Aproveito ainda para dormir até mais tarde. José Carlos Silva

 
Arouca

Domingo, 26 de Setembro de 2021

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